
Há algo que o exercício das minhas funções enquanto Bastonária nunca altera: sou Psicóloga. Porque ser Psicóloga veio antes e continua a fazer parte da forma como olho para as pessoas, para a profissão e para a responsabilidade que hoje assumo.
Por isso, sei que desenvolvemos trabalhos que se veem. Mas sei também que há trabalhos que, muitas vezes, só se percebem na vida daqueles que ajudamos a mudar.
Ser Psicóloga/o é, tantas vezes, estar presente em momentos que os outros não veem. É ajudar a distinguir, no meio de tudo aquilo que ocupa os dias de alguém, o que verdadeiramente importa.
O vídeo que escolhemos para assinalar este Dia Nacional do Psicólogo fala-nos precisamente disso.
A vida vai enchendo o nosso espaço de tarefas, exigências, preocupações, urgências, expectativas e ruído. E, quase sem percebermos, aquilo que é essencial fica de fora.
A Psicologia ajuda a devolver espaço ao que importa. Talvez por isso faça tanto sentido, neste dia, recordar uma das frases mais bonitas de O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry: "O essencial é invisível aos olhos."
Também o é, tantas vezes, o nosso trabalho. Nem sempre se vê aquilo que um Psicólogo ajudou a prevenir, a transformar, a reconstruir ou simplesmente a tornar possível.
E é isso que milhares de Psicólogos - somos já cerca de 28.000 - fazem todos os dias. Fazem-no nos serviços de saúde e nas escolas, nas universidades e nas instituições sociais, nas empresas e organizações, nas autarquias, na Justiça, no desporto, nas forças de segurança e de proteção civil, na investigação, nas clínicas e consultórios, junto das comunidades e em tantos outros lugares onde as pessoas estão.
Fazem-no, muitas vezes, sem que o resultado do seu trabalho possa ser facilmente contado ou medido. E tenho uma profunda consciência de que o impacto do nosso trabalho é, frequentemente, muito maior do que a sua visibilidade.
Sei que exercer Psicologia nem sempre é fácil. Sei dos contextos em que faltam recursos, da ausência de carreiras e de progressões, ou das carreiras que tardam em reconhecer a responsabilidade, a qualificação e a diferenciação dos Psicólogos. Sei da precariedade que persiste. Sei dos profissionais que trabalham com populações profundamente vulneráveis sem terem, eles próprios, a estabilidade profissional que merecem. E sei da exigência emocional de uma profissão que nos pede que estejamos continuamente presentes para os outros, nem sempre garantindo condições suficientes para o nosso próprio cuidado pessoal e profissional.
Reconhecer estas dificuldades não diminui a nossa profissão. Pelo contrário, reforça a responsabilidade de continuarmos a valorizá-la, a protegê-la e a lutar por melhores condições para que os Psicólogos possam exercer plenamente aquilo para que estão preparados.
Por isso, neste dia, quero celebrar-vos.
A cada Psicóloga e a cada Psicólogo que escolhe, todos os dias, exercer esta profissão com conhecimento, competência, humanidade e ética.
Aos profissionais mais jovens, que chegaram há pouco e trazem novas perguntas, novas ideias e novas formas de olhar para a Psicologia e para o mundo. Aos que levam décadas de profissão e ajudaram a construir o caminho que hoje percorremos. Aos que ensinam e investigam. Aos que estão na linha da frente dos serviços. Aos que trabalham, tantas vezes quase invisivelmente, dentro das organizações e das comunidades. Aos que abrem novas áreas para a Psicologia. E aos que, mesmo perante dificuldades, continuam a acreditar no valor daquilo que fazemos.
Temos razões para sentir Orgulho.
Somos uma profissão cada vez mais presente na sociedade portuguesa. Uma profissão que cresceu, se diferenciou e conquistou reconhecimento. Mas somos, sobretudo, uma comunidade de profissionais unida por uma responsabilidade extraordinária: trabalhar com aquilo que existe de mais singular em cada pessoa: a sua história, as suas relações, as suas escolhas, o seu sofrimento, as suas possibilidades e a sua capacidade de mudança.
É também por isso que temos de continuar a cuidar da nossa profissão: das suas condições, da sua qualidade, da sua ciência, da sua ética e do futuro daqueles que a escolhem. Cuidar da profissão e de quem a exerce é também criar melhores condições para cuidar das pessoas e das comunidades que servimos.
Neste Dia Nacional do Psicólogo, quero, por isso, dizer-vos, de uma forma muito simples: Obrigada.
Hoje não quero apenas celebrar a Psicologia. Quero celebrar-vos a vós, por tudo aquilo que fazem, transformam e previnem, mesmo quando ninguém chega a saber que o fizeram.
Continuemos a levar a Psicologia até onde ela pode fazer a diferença.
Continuemos a cuidar-nos uns aos outros e a ajudar as pessoas a encontrar espaço, no meio de tanto ruído, para aquilo que é essencial.
E continuemos, juntos, a construir uma profissão da qual possamos sentir, cada vez mais, um profundo orgulho.
Feliz Dia Nacional do Psicólogo.
Feliz Dia a todas e a todos nós.
Sofia Ramalho,
Bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses





















