
O stresse e os problemas de saúde psicológica no trabalho podem estar a custar às empresas portuguesas até 13,3 mil milhões de euros por ano em perda de produtividade, revela o novo relatório Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal, da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).
A dimensão do valor torna-se mais evidente quando traduzida: 13,3 mil milhões de euros correspondem a cerca de 36 milhões de euros por dia – ou cerca de 1,5 milhões de euros por hora, todos os dias do ano. Num único ano, o custo estimado da perda de produtividade associada ao stresse e aos problemas de saúde psicológica é cerca de uma vez e meia o investimento atualmente estimado para construir o novo Aeroporto de Lisboa Luís de Camões.
O custo está também a crescer rapidamente. Em 2020, a perda de produtividade estimada era de 3,2 mil milhões de euros. Em 2022, atingia 5,3 mil milhões. Em 2024, chega aos 13,3 mil milhões de euros. Em apenas quatro anos, o custo mais do que quadriplicou.
E uma parte significativa destas perdas pode ser evitada. Se medidas de promoção da saúde psicológica, prevenção e identificação precoce dos problemas permitirem reduzir estas perdas em pelo menos 30%, seria possível evitar perdas próximas de 4 mil milhões de euros por ano.
A Bastonária da OPP, Sofia Ramalho, sublinha que "estes números mostram que não podemos continuar a tratar o stresse e os problemas de saúde psicológica no trabalho como um custo inevitável de trabalhar." E acrescenta: "Estamos perante perdas humanas, organizacionais e económicas de uma dimensão que o país não pode ignorar. Sabemos que uma parte significativa destas perdas pode ser prevenida." Para Sofia Ramalho "investir intencionalmente em locais de trabalho física e psicologicamente saudáveis, e promotores de bem-estar, é investir nas pessoas, mas é também uma decisão de gestão, de produtividade e de sustentabilidade."
Até 40,5 dias de produtividade afetada por trabalhador por ano
Por detrás dos milhares de milhões estão dias de trabalho e de produtividade afetados.
Em 2024, estima-se que cada trabalhador tivesse faltado, em média, 13,5 dias por ano devido ao stresse e a problemas de saúde psicológica. A estes somam-se até 27 dias de presentismo – situações em que a pessoa está a trabalhar, mas com a sua produtividade reduzida devido a problemas de saúde.
Em conjunto, são até 40,5 dias de trabalho por trabalhador por ano afetados pelo stresse e por problemas de saúde psicológica. Em 2020, os valores estimados eram de 6,2 dias de absentismo e 12,4 dias de presentismo.
Dos 13,3 mil milhões de euros de perda de produtividade estimada para 2024, cerca de 4,4 mil milhões resultam do absentismo e 8,9 mil milhões do presentismo. Ou seja, aproximadamente dois terços do custo estimado resultam de situações em que as pessoas continuam a trabalhar, mas não conseguem fazê-lo em plena capacidade.
As PME suportam a maior parcela: cerca de 10,2 mil milhões de euros, contra aproximadamente 3,1 mil milhões nas grandes empresas.
Uma fatura equivalente a 2,1% do volume de negócios das empresas
Os 13,3 mil milhões de euros correspondem a cerca de 2,1% de todo o volume de negócios anual das empresas portuguesas não financeiras.
O valor equivale ainda a cerca de 13,5% de toda a despesa anual destas empresas com salários e outros encargos sociais – chegando a aproximadamente 16,5% nas PME.
E esta é uma estimativa conservadora quanto ao universo de custos considerados: o cálculo abrange apenas empresas não financeiras, exclui a Administração Pública e considera apenas custos indiretos associados ao absentismo e ao presentismo.
Prevenir pode evitar perdas de quase 4 mil milhões por ano
Partindo do pressuposto de que medidas de promoção da saúde psicológica, prevenção e identificação precoce dos problemas podem reduzir estas perdas em pelo menos 30%, seria possível evitar perdas próximas de 4 mil milhões de euros por ano.
A evidência reunida no relatório mostra ainda que o investimento nesta área pode ter retorno económico significativo: são referidos estudos que apontam para 5 euros de retorno por cada euro investido em saúde psicológica, existindo intervenções cujo retorno estimado ultrapassa os 9 euros por cada euro investido.
A saúde psicológica no trabalho não é apenas uma questão de bem-estar ou de saúde. É também uma questão de produtividade, competitividade e sustentabilidade das organizações. E, à escala destes números, uma questão económica para o país.
Tendo em conta a realidade descrita, é imprescindível que as organizações avaliem os riscos psicossociais e adotem medidas que permitam preveni-los. O relatório Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal apresenta ainda um conjunto de recomendações dirigidas às organizações e líderes e outro para decisores.





















